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Demorei muito (talvez até demais) para sentar e escrever este artigo. É como se algo me travasse, me impedisse de sentar na frente do computador, como fiz centenas de vezes nos últimos seis anos, e expusesse claramente meu pensamento. Peço desde já desculpas aos visitantes do RINGUE em relação a este fato, já que sobre ele não tenho a ninguém responsabilizar senão a mim mesmo.
O RINGUE fez parte intensa da minha vida pelos últimos seis anos. Foram muitas e muitas horas dedicadas a este projeto, muitas madrugadas, centenas de atualizações, perto de duas mil matérias informativas e quase seis dezenas de artigos opinativos. O site começou de forma totalmente despretensiosa, aproveitando-se da democracia na comunicação instituída pela internet. A primeira matéria publicada se deu no dia 03 de maio de 2002. O protagonista? Ele mesmo, Mike Tyson, o personagem mais marcante da minha trajetória no boxe.
Nos primeiros meses com o site, não tinha a menos noção sobre se alguém estaria lendo o que eu escrevia. Não fiz propaganda, não cadastrei o RINGUE no Google, não peguei a chancela de ninguém. Simplesmente ia escrevendo, dividindo com a web a minha paixão: o boxe, as estórias, os pugilistas, as glórias e as tragédias. A partir de determinado momento, comecei a receber alguns e-mails, com críticas e elogios sobre as matérias do site. Percebi que alguém estava lendo os meus escritos, de forma que passei a me motivar mais e mais e escrever mais e mais. Escrevi muito! Me dediquei de forma quase obsessiva ao RINGUE. Foram muitas e muitas madrugadas! Passei a reparar que através do site, poderia eventualmente, talvez modestamente, combater o que sempre me incomodou dentro do boxe: a corrupção e a mentira. Em 2003, escrevi mais de 500 matérias. Em 2004, também. Decidi que o RINGUE tentaria separar bem as matérias informativas das opiniões do site. E, dentro de todas, buscávamos levar a verdade para que os próprios leitores tirassem suas conclusões a respeito dos mais diversos temas. Um dos momentos altos do RINGUE (e meu também) foi em setembro de 2003, com a entrevista com Eder Jofre. Um momento maravilhoso, de emoções ambivalentes, mas repleto de significado. Dois meses depois, uma agradável surpresa: recebi um e-mail com um convite para fazer parte da mesa que entrevistaria George Foreman, que estaria visitando o Brasil para promover seus conhecidos grills, para o programa Bola da Vez da ESPN Brasil. Novo momento marcante para mim, já que Foreman é um dos meus ídolos no boxe. José Elias com Éder Jofre .jpg)
José Elias com George Foreman Estes eventos acabaram por me tornar relativamente conhecido dentro do pequeno mundo do boxe brasileiro. Com eventos baseados majoritariamente no estado de São Paulo, passei a acompanhar algumas lutas ao vivo, nos ginásios, vivendo mais intensamente o clima dos combates, dos boxeadores, as vivências, os bastidores. Passei a presenciar a dura realidade do boxe nacional, principalmente dos boxeadores. Passei a conhecer aqueles que deveriam ganhar; aqueles que deveriam perder; passei a conhecer estórias “cabeludas” que nunca pude divulgar por falta de provas ou por pedidos de sigilo que concordei em respeitar. Descobri que, neste cenário do boxe nacional, se você fala bem de alguém é amigo; se critica, torna-se automaticamente persona non grata. O provincianismo é tal que se torna constrangedor inclusive para jornalistas experientes, o que não é o meu caso, já que sequer jornalista profissional eu sou. Descobri isto principalmente com o episódio do combate entre brasileiros que mais me marcou nos últimos anos, realizado entre Marinho Soares e Fábio Garrido. Nunca antes o lado mais primitivo e brutal do boxe surgiu ante os meus olhos, traduzidos num nocaute violento, num pugilista inconsciente (Garrido), com coágulo no cérebro, sendo hospitalizado às pressas na UTI de um hospital de São Paulo, entre a vida e a morte, e numa comemoração grotesca por parte do vencedor, que gabou-se do estado em que o pugilista derrotado havia ficado. Ainda em 2004, tive momentos diferentes. Um novo convite da ESPN Brasil para substituir o comentarista Servílio de Oliveira, em viagem aos EUA, para dois dias de competição olímpica em Atenas. Boxe amador nunca foi o meu forte e, em verdade, eu nunca gostei muito dele, tanto é que o RINGUE nunca cobriu de fato este tipo de competição. Mas, ao fim de 2004, o fato de Kelson Pinto enfrentar o porto-riquenho Miguel Cotto pelo título vago dos meio-médios-ligeiros pela WBO sem qualquer cobertura televisiva me indicava que seria quase impossível fazer uma cobertura de fato do boxe. Não havia as condições necessárias para tanto.2005 foi o ano que iniciou com uma saudável amizade desenvolvida com Santo Arias, pai de George Arias, campeão brasileiro dos pesos pesados. Nunca escondi de ninguém que passei a admirar a forma como a família Arias encarava o boxe, a seriedade, a postura, algo que é pouco comum no boxe. Colaborei com Santo Arias no agendamento de duas lutas: uma na Dinamarca, em 15 de abril de 2005, quando Arias derrotou o local Steffen Nielsen por nocaute no terceiro round, e outra na Alemanha, mais precisamente em Stuttgart, onde George acabou derrotado por TKO para o cubano Juan Carlos Gomez. .jpg) Santo e George Arias Novamente vi um lado do boxe que só conhecia na teoria, e não gostei. Aliás, confesso que me senti ultrajado em alguns momentos. A luta contra Nielsen foi marcada no sábado, dia 09 de abril. O dinamarquês tinha combate previsto contra o norueguês Thomas Hansvoll, que acabou se contundindo no treinamento. Quando eu descobri isto, entrei em contato com a equipe de Nielsen, que eu sabia que precisaria de um adversário para seu pugilista. George estava treinando muito forte e preparado para lutar, mesmo sabendo do adversário apenas seis dias antes. Na conversa, tive a chance de dialogar com Mogens Palle, um dos mais famosos promotores de boxe da Europa. Discutindo as bases do contrato, ele repetia: “Só precisamos de uma ‘galinha morta’, para preencher o espaço no programa”! Aquilo me irritou muito e eu lhe disse: “Acho bom que o senhor saiba que George não aceitaria esta luta caso achasse que não tem chance. Ele está indo aí para ganhar! Se o senhor quer uma ‘galinha morta’, fale com outra pessoa. Aliás, eu nunca enviaria um adversário para aí que não tivesse chance de ganhar”. Ele calou-se. A satisfação por George ter vencido acabou redobrada após este diálogo. Nossa sorte na Alemanha não foi a mesma, e obviamente ficamos todos tristes com a derrota. Mas o que mais me marcou na oportunidade foi perceber claramente que no boxe alguns pugilistas devem ganhar e outros devem perder. É assim. Simplesmente. Numa luta preliminar entre uma pugilista alemã e uma japonesa, a oriental nocauteou a alemã no quinto round. O árbitro parou a luta, deu tempo para a européia se recuperar (por volta de 30 segundos) e mandou seguir. A japonesa ganhou todos os rounds seguintes, mas obviamente perdeu a decisão por pontos de forma unânime. Simplesmente deveria ser assim. Ponto final. Meses depois, falando com um pugilista brasileiro extremamente reconhecido, ele me confirmou que entregou pelo menos uma luta. “Meu empresário me disse que eu deveria cair. Estava desmotivado e fiz isto mesmo. O cara não me acertou, mas eu fui à lona e fiquei”. Trágico. Mas, depois de um tempo, você passa a perceber que esta é a realidade de muitos pugilistas brasileiros e estrangeiros, principalmente fora de seus países. Suas chances de ganhar de forma lícita são reduzidas e muitas vezes são oferecidos “bônus” para que a luta seja entregue. Isto acontece com freqüência, principalmente na Europa. Pois bem, o tempo foi passando. Em janeiro de 2006, recebi um convite de uma emissora de TV a cabo para ser o comentarista de boxe da mesma. É claro que fiquei motivado! Mas, dias depois, a ducha de água fria veio. Ninguém tinha informado à emissora que o Brasil é maior que São Paulo. O fato de eu viver em Porto Alegre/RS e a emissora ter sua sede na capital paulista tornaria a logística impossível e inviável, tanto para a emissora quanto para mim. O convite foi desfeito. Outras sondagens nunca se confirmaram, umas pela distância de São Paulo, outras por razões políticas. A verdade é que algumas emissoras não gostariam de ter alguém independente comentando, mas sim um terceiro que pudessem manejar de forma mais confortável. Mas não me entendam mal: existem bons e independentes comentaristas de boxe no Brasil. Independência no boxe brasileiro é algo que pega mal. Em determinado momento, o RINGUE passou a ser boicotado por algumas assessorias de imprensa, simplesmente porque não se submetia a textos prontos enviados pelas mesmas. Provinciano, sim, mas este é o jogo. Cheguei a mudar o visual do RINGUE, com uma nova proposta, mas moderna. Mas nunca voltei a ter a mesma paixão, a mesma vontade que faz com que às vezes façamos na vida coisas maravilhosas, insuperáveis até. Como um pugilista decadente e desmotivado, o RINGUE persistiu cambaleante, alternando bons momentos, como a série RINGUE MASTER, com longos hiatos de atualizações e com justificadas reclamações por parte de seus leitores. Uma viagem de estudos à Europa entre outubro e novembro do ano passado não ajudou nem um pouco e a partir daí passei a considerar de fato a possibilidade de encerrar a minha participação no site. Resolvi dar um tempo, refletir a respeito. Buscava não me arrepender de abrir mão de algo que surgiu do nada, numa festa de aniversário de um amigo comum, quando eu e Rafael Hocsman, o Rafinha que hoje participa de diversos programas na TV brasileira, decidimos tentar algo. O projeto evoluiu, cresceu, mas precisa de um nível de dedicação, de empenho e de paixão que eu realmente não tenho mais. Além de tudo isto, os mesmos motivos que me fizeram entrar no boxe através do RINGUE há seis anos, fazem com que hoje eu me despeça. Que surjam outros RINGUES no horizonte, através de jovens abnegados e idealistas que possam contribuir não somente para o desenvolvimento e para a moralização do boxe, como de nossa sociedade. Afinal, o que seria do mundo se não fossem os idealistas? Aqui cabe um auto-elogio: vejo que o RINGUE inspirou algumas pessoas que gostam de boxe; que revoltou outras; que emocionou outras tantas... Vejo que hoje, os promotores de boxe, as assessorias de imprensa, as emissoras, todos sabem que não poderão enganar a todos, que haverão sempre aqueles que falarão a verdade e que é melhor que eles dela não fujam, sob pena de sofrerem um tremendo constrangimento. Vejo que o público tem hoje uma postura mais crítica do que antes em relação ao que passa na TV, com relação aos títulos de fachada (quais não são?), com relação às fraudes. Talvez seja um avanço mínimo, uma agulha no palheiro. Mas mesmo assim, é muito gratificante. A atual situação do boxe nacional e mundial Minha posição é clara: o boxe como esporte com apelo de massa acabou há tempo. Não somente no Brasil, mas ao redor do mundo também. Não há como não reconhecer este fato. O esporte, outrora o mais visível e poderoso símbolo de força e poder de uma sociedade, não significa mais sequer uma fração do que representou um dia. Pode-se argumentar que estamos numa “má fase”. Porém, não é verdade. Infelizmente, o boxe não passa por uma má fase, mas sim por um processo contínuo de destruição que já dura - no mínimo - quase três décadas completas. Este processo começou de forma definitiva no início dos anos oitenta, com a famosa proliferação de organismos internacionais que sancionam lutas por título. Estes, combatidos bravamente pelo RINGUE durante os últimos seis anos, são os grandes responsáveis pela queda de prestígio deste que já foi o maior esporte do planeta. Por isto, quem ama o boxe de verdade não gosta das letrinhas, sejam quais forem: WBC, WBA, IBF, WBO, IBC, IBA, WBF, WBU... Está sopa de letrinhas é envenenada! Acreditem! Quando a mais simples pergunta que um fã leigo pode fazer (“quem é o campeão mundial dos pesos pesados?”, por exemplo) não pode ser respondida de forma objetiva, algo há de errado. Se você, fã de boxe, hoje conseguir responder esta pergunta com objetividade, parabéns. Eu não consigo! E já não tenho paciência para explicar que existem vários organismos, que cada um deles tem um campeão, blá, blá, blá. O leigo não agüenta isto, assim como nós, que vivemos o boxe intensamente, não deveríamos agüentar. Todos sabem que Roger Federer é o #1 no tênis. Todos sabem que a Itália ganhou o campeonato mundial de 2006. Todos sabem que Kimi Raikonnen é o atual campeão mundial de Fórmula 1. O público entende isto. Mas o boxe não é assim. A não ser em casos que transcendem os títulos e que são cada vez mais raros (Oscar De La Hoya, Floyd Mayweather, Mike Tyson, Manny Pacquiao e Roy Jones são alguns deles), os outros todos dependem desesperadamente destes cinturões que, a rigor, não têm qualquer valor intrínseco e só servem como palco amigável para o exercício de práticas ilícitas, como aliciamento, abuso do poder econômico, conflito de interesses, além de ajudar um bando de dirigentes desocupados a comer em bons restaurantes, viajar e fazer turismo à custa dos pugilistas. Sim, porque estes organismos são financiados com dinheiro da bolsa dos lutadores, que enram e se machucam nos ringues. Ou seja, uma tragédia! É verdade que existem outras razões importantes para o declínio deste esporte. Uma delas é a falta de cobertura das emissoras de TV aberta, não somente no Brasil, mas a nível mundial. Mas esta, em verdade, é uma conseqüência da proliferação de cinturões. Como praticamente todas as lutas hoje valem “título de alguma coisa”, a vulgarização restou óbvia e também a impossibilidade destes combates serem transmitidos na TV aberta. Senão, não haveria espaço para outro tipo de programa, de tantas lutas medíocres que são promovidas. Em verdade, as emissoras de TV têm um interesse importante nesta proliferação de títulos. Transmitir uma luta por um cinturão tem mais apelo frente a um público que não conhece a fundo os boxeadores do que a luta em si. Infelizmente, os cinturões, via de regra, tornaram-se maior do que os pugilistas. E embora alguns desinformados aleguem que estes cinturões dão mais oportunidades aos pugilistas, isto é uma falácia enorme. As “oportunidades” a que se referem estas pessoas estão onde? Estas mesmas TVs no Brasil ainda vendem seus espaços para promotores fazerem eventos “de mentira”. Mentem cartéis, mentem nomes de lutadores, fazem escores ridículos para as pessoas leigas acreditarem que aquilo vale algo. Antigamente, se chamava isto de “matéria paga”. Outros chamavam de “jabá”. Mas a verdade é que o que o público vê e ouve não é a realidade. Vou repetir algo que já escrevi outras vezes. Mais de dez anos atrás, quinze talvez, quando eu sintonizava no SBT para assistir a várias lutas do meu grande ídolo Adilson “Maguila” Rodrigues, ficava surpreso quando Tony Auad anunciava o cartel do adversário. Eu tinha o cartel verdadeiro na minha frente e eles certamente eram diferentes. Demorei a acreditar que aquilo era de propósito. Com Luciano “Todo-Duro” Torres era a mesma coisa. Em 2003, assisti a casos assim não pela TV, mas ao vivo, no ginásio. O público enganado descaradamente. E ninguém falava nada, porque o corporativismo no boxe brasileiro é grosseiro. As pessoas têm medo de perder suas “boquinhas” ou de criar eventuais atritos com aqueles que lhes podem ser úteis. Recentemente, na Rede TV, a mesma coisa aconteceu. E – pasmem! – através das mesmas pessoas! Sinceramente, não dá para agüentar. Alguns me dizem: “se não for assim, não tem boxe no Brasil”. E eu digo: se é para ser assim, que não tenha. Não posso compactuar com isto, mesmo que isto inviabilize este boxe que alguns defendem. E os pugilistas, hein? Estes, os verdadeiros heróis, os ídolos, estão, em sua imensa maioria, em péssima situação. Pergunte onde anda Juarez de Lima, excepcional peso médio, um dos grandes pugilistas brasileiros de todos os tempos? Francisco Tomás da Cruz, sabidamente em situação delicada. E tantos e tantos outros, que tomaram pancadas e mais pancadas e foram explorados até o último centavo como galos de rinha indefesos. E os boxeadores que estão atuando hoje? Sabe quanto ganha um boxeador para fazer seis rounds no Brasil? Ou oito? Talvez nada! Muitas vezes, o adversário paga a bolsa! Veja o conflito de interesse: o adversário paga a bolsa. Quer dizer, “comporte-se, porque se você vir dar de valente, não tem negócio”. Se o camarada tiver sorte, vai ganhar R$ 100 por round. Que horror. O boxe no Brasil, a não ser pelo advento de Popó e brevemente pelo de Sertão, acabou há tempo. Falta tudo: seriedade, profissionalismo, honestidade e estrutura. Reclamam de falta de patrocínio, mas dá para patrocinar alguém num cenário como este? Dá para comprar uma cota de patrocínio em alguma emissora? Infelizmente não dá. Vejo os pugilistas no Brasil disputando migalhas, como pombas famintas. Eles, em geral, não têm qualquer preparo para negociar, não tem acesso a computador ou internet, acreditam quando o promotor ou padrinho diz que ele vai lutar com De La Hoya, com Roy Jones, com este ou aquele. Ficam muitas vezes doze ou dezoito meses treinando, sem ganhar nada. De repente, do nada, eles são colocados na frente de uma pedreira e perdem. Mas, me digam: como vão ganhar? A não ser por um milagre, nunca vão ganhar. Para abreviar o assunto, sugiro, dentro das limitações que este espaço tem, que o Ministério Público abra uma investigação imediata sobre o que vem ocorrendo com o boxe no Brasil. Não é, de fato, a minha área, mas eu realmente acredito que as premissas para isto estejam aí para quem quiser ver. Outra questão importante e que vem liquidando com o boxe é o fato que este esporte sabidamente deixa seqüelas malditas em muitos de seus praticantes profissionais. Seja no Brasil ou no exterior, hoje é sabido que o boxe e os golpes recebidos em treinos e em lutas são responsáveis pelo aparecimento ou agravamento de diversas doenças. Existe a famosa Dementia Pugilistica, cujo próprio nome é auto-explicativo, e que afetou pugilistas como o famoso peso pesado Jerry Quarry. Esta doença acaba por transformar a pessoa ao longo do tempo em um ser sem memória, sem coerência e sem capacidade de fazer suas necessidades básicas de forma independente. Outra doença que tem haver com a prática do boxe é o famoso Subdural Hematoma, ou, numa tradução leiga, algo como um sangramento cerebral. Esta é a principal causa mortis de boxeadores em combate e foi o que tirou a vida de homens como Benny “Kid” Paret, Duk Koo Kim, Leavander Johnson e deixou seqüelas intransponíveis em Gerald McClellan, por exemplo, hoje cego e em cadeira de rodas, ou em Michael Watson, pugilista inglês, ex-desafiante pelo título WBO dos médios. Dizer que o boxe não é violento é ridículo. Comparar o boxe com alpinismo, vôo livre e outros esportes que tem uma taxa de mortalidade maior é igualmente inadequado. Primeiro porque o boxe pode deixar seqüelas que vão matar seus profissionais ao longo do tempo ou transformá-los em seres dependentes. E o mais importante: o boxe tem o objetivo de ferir o adversário, coisa que estes outros esportes não têm. A verdade é que tamanha brutalidade, ainda que organizada em formato de esporte, não condiz com nosso tempo. Alguém pode argumentar que eu estou escrevendo isto porque não vou mais continuar no esporte, mas não é verdade. Em diversos artigos nos últimos anos, notadamente em A Lógica da Insensatez, abordei este tema de forma clara. Aliás, se eu puder recomendar alguns artigos dentre tantos que foram escritos ao longo destes anos, além de A Lógica da Insensatez, a lista é a seguinte: Vida e morte de Bradley Rone A arte de parar Brasil na lona Conversa de outro mundo A alma das luvas – pais e filhos É a minha lista. Talvez falem menos sobre boxe e mais sobre outras coisas, mas é isto mesmo. O futuro Muitos me perguntam o que eu farei com o RINGUE. Ele continuará? Com qual formato? Você vai vender? Vai vender a marca? O domínio? Não tenho resposta para isto ainda. Não sei como isto se dará. Tenho algumas idéias, assim como alguns artigos escritos e não-publicados. Também não sei se este afastamento será permanente ou momentâneo. Tenho a impressão, com toda a sinceridade, que já cumpri a minha missão no boxe, mas descobri que a vida pode trazer surpresas. Assim, não descarto a possibilidade de um retorno no futuro, mas atualmente não consigo visualizar isto. Tenho outros objetivos imediatos e gostaria sinceramente de me dedicar a novos projetos. Achei por bem escrever este artigo para, prioritariamente, dar uma satisfação aos visitantes do RINGUE e àqueles que prestigiaram o site nos últimos anos, lendo as matérias e dando suas contribuições. Elogiando e criticando, mas, acima de tudo, participando. Agradecimentos Não poderia deixar de agradecer inúmeras pessoas que foram fundamentais nesta caminhada. Em primeiro lugar, quero reconhecer minha noiva, Carla Ariane, que viveu comigo praticamente todos os instantes do RINGUE, desde o início anônimo, vibrando com as vitórias, solidária com as frustrações, lendo cada matéria, me incentivando a continuar e indo inclusive comigo em alguns dos meus compromissos no boxe. Ela foi sem dúvida a minha maior incentivadora neste projeto e agradeço demais a ela por isto. Outra pessoa que acabei tendo a sorte de conhecer através do RINGUE foi o hoje querido amigo Adelson Xavier Pires, que me ajudou em tudo que pôde nesta caminhada desde que nos conhecemos em 2003. Fomos juntos a algumas lutas, conversamos bastante e nos identificamos, principalmente, em relação aos valores e princípios. Adelson foi o maior colaborador que o RINGUE teve e a ele devo muito. E lhes digo, este homem sabe bastante sobre o tema. Outros a quem agradeço por terem colaborado de alguma forma nesta trajetória (e me desculpem se estou esquecendo de alguém) são Rafael Hocsman, Santo Arias, Sidnei Dal Rovere, Cleber Neitzke, Alessandra Becker, André Stéfano, Ricardo Trigo, Ringue Master, Reinaldo Carrera, Daniel Fucs, Ricardo Perrone, Rinze Van Der Meer, Bruno Giorgetto, Delano Vaz, Rebecca Santos e Marcelo Fontana. A todos, os citados acima e a outros tantos não-citados, o meu muito obrigado. E um agradecimento especial aos leitores que prestigiaram o RINGUE com seu tempo e paciência. Chegamos em determinado momento a ter mais de 35.000 visitas mensais, e isto me gratificou muito. Foi uma grande honra, talvez muito maior do que possam imaginar. Obrigado por tudo!
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